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sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Um cordel para Iana Amorim - Homenagem

Ela é linda e passeia
Dentro do meu coração
Me chamou como sereia
Nas águas de um ribeirão
E foi ali que mergulhei
Com toda minha emoção.

Parece que eu a conheço
De alguma vida passada
Não sei se foi no tempo
Da era da pedra lascada
Ou se da babilônia
Cidade hoje enterrada.

Talvez possa ter sido
Do Brasil colonial
Onde éramos da terra
Desse povo ancestral
Talvez do povo inca
Ou da América central.

Quem sabe nós já vivemos
Na Europa medieval
Ou até mesmo na Índia
Ou na Ásia oriental
Talvez nos conhecemos
No Tibete ou no Nepal.

Quem sabe nós já vivemos
Até em outro planeta
E chegamos até aqui
Num rabo de um cometa
Essa parte é brincadeira
Cordel tem que ter mutreta!

Na verdade eu não sei
Só tenho uma sensação
Nem sei se acredito
De fato em reencarnação
Só sei que Iana merece
Esse cordel de coração.

Ela tem um jeito meigo
Muito simples, que cativa
É dura quando deve ser
Sempre é bem positiva
Inteligente, atrapalhada
Mulher muito criativa

Pele morena do jambo
Que ela tanto ama comer
Sorriso às vezes tímido
Que sorri quando me vê
Abraço bom que me abraça
Em cada novo amanhecer

Ela tem em seu olhar
A paz da serenidade
Seu jeito tão sereno
Nos passa tranquilidade
E não há coisa melhor
Do que ter sua amizade.

Seu passa tempo favorito
Além de dormir, é sonhar
Ama comida caseira
Gosta de ler e viajar
Ela ama a simplicidade
E viver neste lugar.

Ela se perde em devaneios
Como eu me perco também
Vive pensando nos outros
Querendo fazer o bem
A família é seu tesouro
A melhor joia que tem.

Ama as flores e os pássaros
Adora estar na natureza
Cuida das suas plantas
Sua hortinha é riqueza
Guarda em seu coração
A calma da singeleza.

Tem seus medos e dores
Mas não se deixa abater
Procura o melhor da vida
Para seu peso vencer
Iana é bem otimista
Crê em Deus e em seu poder.

Os percalços da vida
Não lhe fizeram parar
Desde jovem se esforçou
Insistiu em estudar
Mesmo que a realidade
Tentasse desmotivar

Iana menina morena
Sempre foi batalhadora
Mesmo com dificuldade
Conseguiu ser vencedora
Foi estudante, secretaria,
Competente professora.

Hoje presta seu serviço
Numa Universidade
Trabalhadora competente
Servidora de verdade
Crê que a educação
É a própria liberdade

Mãe muito dedicada
Uma leoa protetora
Ama com toda sua força
Sua prole encantadora
Maria Flor e Lisbela
Tem a sua defensora

Iana merece esse verso
Pela pessoa que é
Por seu bonito universo
Pequena grande mulher
Que apesar do meio adverso
Luta, a luta que vier

Seu exemplo de vida
É bastante inspirador
Como de muitas brasileiras
Do Brasil interior
Você é mulher que venceu
Com coragem, força e amor.

E em mais esse ano de vida
O poeta só deseja
Que você seja feliz
Que alcance o que almeja
Que a saúde, harmonia
Muita paz e poesia
Com você sempre esteja.

FIM



quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A tragédia no Museu Nacional

Dia de domingo trágico
Pra cultura foi fatal
Quase tudo foi perdido
Com fogo e desdém total
O Brasil perdeu memória
Imenso acervo da história
Do Museu Nacional

Bem no Rio de Janeiro
Na quinta da boa vista
Se encontrava o museu
Num palácio imperialista
Herança do poder real
Da coroa de Portugal
Do século oitocentista

Duzentos anos completou
Este museu tão importante
Que abrigava grande acervo
E encantava o visitante
No mesmo ano infelizmente
A tragédia vorazmente
Desfez tudo num instante

Foi triste ver as imagens
Pessoas desesperadas
Tentando salvar o possível
Entre as chamas inflamadas
Com choro e muita tristeza
As feridas com certeza
Serão pra sempre lembradas

O mais antigo museu
Deste país negligente
Da sua cultura e história
Zomba diariamente
Sem dar valor a memória
O povo vai na trajetória
De um futuro decadente

Um trabalho secular
Se acabou rapidamente
Sobrou pouco pra contar
A história de nossa gente
Entre as cinzas do passado
O dia será lembrado
No futuro infelizmente

As ciências hoje choram
Pois no acervo se perdeu
As coleções inteiras
Que o mundo já conheceu
Exemplares naturais
Obras e bens culturais
Se foram com o museu

Livros, jóias e múmias
Muitos fósseis e artefatos
Exemplares naturais
Esculturas e retratos
Um acervo sem igual
Teve um trágico final
Como mostraram os fatos

O museu recebia pouca
Verba pra manutenção
Não tinha investimento
Naquela instituição
Um governo incapaz
Para cultura só traz
Desgosto e decepção

Um deputado custa mais
Do que recebe por ano
Esse museu nacional
Muito vergonhoso e insano
Esse país sem cuidado
Sem política de Estado
Pra cultura é tirano

A importância de um museu
Para nossa educação
É de extrema relevância
Pra ampliar nossa visão
Fornecer conhecimento
Mais cultura, entendimento
Da história desse mundão

A cultura neste país
Tem tido pouco valor
Arte, tradição e memória
Sobrevivem pelo amor
De gente que na cultura
Se lança com a bravura
De um grande lutador

Cultura não rende votos
Assim como educação
Políticos tradicionais
Tem limitada visão
Para verem que a cultura
E a educação são a cura
Pra mudar nossa nação

Se a cultura e educação
Não tiverem preferência
Prioridade no país
Como não tem a ciência
Jamais iremos chegar
Ao esperado patamar
De um país de referência

País que deixa queimar
Sua história facilmente
Não preserva a identidade
Com o passado não aprende
No futuro está fadado
A repetir do passado
Os erros integralmente

Tristemente o museu
Ficou bem mais conhecido
Depois de sua queda
Vai sendo reconhecido
O inestimável valor
Bem aqui e no exterior
Tributo tem recebido

O que pode ser feito
Para tapar a ferida?
Nada trará de volta
O museu a antiga vida
Mas ele pode renascer
E esse país aprender
Com a lição recebida

Talvez daqui pra frente
As coisas possam mudar
Quem sabe mais importância
A cultura irá ganhar
Prefiro ser otimista
Quem sabe o país invista
Pra cultura melhorar

Por um país onde haja
Mais reverência à memória
Respeito à nossa cultura
E apreço pela história
Onde livros façam parte
Da nossa vida, e que a arte
Tenha seu tempo de glória

Que o povo possa ter
Um museu pra visitar
Um teatro pra assistir
Boa música pra escutar
Poesia em abundância
Mais valor e importância
À cultura popular

E agora eu me despeço
Num desalento total
Por este triste episódio
Pra cultura mundial
Deixo aqui minha mensagem
Como pequena homenagem
Ao museu nacional.

Giano Guimarães

Cordel A MENINA E O LIVRO - por Giano Guimarães

1

Uma história sobre páginas
Letras, palavras e versos
De como a leitura pode
Abrir novos universos
Que muitas vezes estavam
Tão distantes e dispersos

Ela havia ganhado um livro
Era um livro de poesia
Na primeira página um Poema
Que falava de fantasia
De como as letras revelam
O mundo que ela não via

Na segunda página ela
Leu um poema encantador
Dessa vez versando sobre
A mágica viva do amor
Do amor que jamais se rende
Nem mesmo na hora da dor

Na terceira página leu
Um poema de brincadeira
Daqueles de bola, de roda
De corrida na ladeira
Da mais pura diversão
Vivida na infância inteira

2

Na quarta página veio
Um poema diferente
Que falava sobre céu
E sobre a lua crescente
Eram versos das alturas
Das coisas que a gente sente

Na quinta página o poema
Tratava sobre saudade
Que quando aparece no peito
Toma conta e nos invade
É como estar faltando
Na gente uma metade

Na sexta página que abriu
A menina se encantou
Leu sobre uma gota d'água
Que outra pessoa derramou
Era água vinda dos olhos
De um poeta que chorou

Na sétima página então
Aconteceu o inesperado
Um poema com seu nome
Muito bonito e rimado
Ver seu nome num poema
Deixou seu dia encantado

3

Na oitava página abriu
Em formato de soneto
Um poema assustador
De um esquisito esqueleto
Que morava num castelo
Velho, já muito obsoleto

Na nona página a menina
Na leitura viajou
Pois era sobre Paris
Cidade que visitou
Em seus sonhos de lugares
Dos quais em ir já pensou

Na décima página havia
Versos lindos de amizade
Dizendo que ter amigo
É ter a sinceridade
O apoio e uma mão amiga
A toda hora de verdade

E foi na página onze
Que esse livro ganhou vida
Era como se a menina
Vivesse a palavra lida
Em cada poema novo
Uma alegria vivida

4

Na décima segunda página
Um poeminha surgiu
Era sobre um cachorrinho
Que de sua casa fugiu
Mas que foi encontrado
Antes de ir para o canil

Na página treze havia
Um poema sobre azar
Sobre sexta feira treze
E gato preto passar
Bem na frente da gente
Numa noite de luar

Na décima quarta página
Versos sobre educação
Era um poema sobre a escola
Que tinha como missão
Levar o conhecimento
Para todo cidadão

A décima quinta página
Tinha apenas uma linha
Um verso que dizia assim:
"Minha alegria é minha"
A menina ficou pensando
Que segredo ali continha

5

A página dezesseis
Sobre o tempo discorria
Dizendo como é rápido
Esse tempo que nos cria
E como ele também é
Um professor que nos guia

Na página dezessete
Um poema desastrado
Sem ter sentido nenhum
Onde um círculo quadrado
Rimava com o infinito
De uma casa sem telhado

Na décima oitava página
A menina completou
O verso que faltava
Sobre a luta que ganhou
A formiga contra o touro
Que bravamente lutou

No poema dezenove
Cada verso repetia
A frase "seja feliz"
Aquilo era a poesia
Mostrando a felicidade
No verso de cada dia

6

E na vigésima página
A menina se perdeu
Dentro do próprio poema
Que quarenta vezes leu
De tão lindo que achou
Sobre Andrômeda e Perseu

Na página vinte um
Versos sobre a natureza
Falando de fauna e flora
Com toda sua riqueza
Sua importância pro mundo
Além de toda a beleza

A página vinte e dois
Tratava sobre um lugar
Bem Distante do nosso
Chamado de Shangri-lá
Onde o tempo não passava
Como aqui vemos passar

7

Na página vinte e três
Um poema que ensinava
Como o hábito da leitura
Na vida tudo mudava
O poema dizia no fim
Que a leitura transformava

Na página vinte e quatro
O livro chegou ao final
Com um poema dizendo
Que o mundo é um quintal
Onde a simplicidade mora
E ser simples é vital

A menina fechou o livro
Logo depois o abraçou
Do lado do seu peito
Por muito tempo guardou
Um livro de poesia
Que jamais da mente tirou

8

A marcante literatura
Que trouxe felicidade
Para aquela menina
De uma pequena cidade
Também lhe trouxe um pouco
De mais profundidade

Esse foi só o começo
De seu amor pela leitura
Esse hábito tão belo
Que acrescenta e traz cultura
Que fortalece o interior
E até mesmo leva a cura

Fica aqui a mensagem
Desse cordel mensageiro
Para ser lido e levado
Para esse mundo inteiro
Como amigo da leitura
E dos livros um parceiro.

Giano Guimarães



segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Um cordel para Tocantinópolis

Pra contar as belezura
Que a gente vê todo dia
Aqui nesta freguesia
Eu apresento o meu cordel
Feito de modo fiel
Num velho computadô
Com verdade e com amô
Falando da Boa Vista
Fazendo uma breve lista
Como receita um doutô

Se chama Tocantinópolis
A cidade onde nasci
Onde vivo e já vivi
Onde bola já joguei
Onde muito eu já brinquei
Debaixo de pé de manga
Procurando umas milanga
Para isca da pescaria
Pra onde ia no fim do dia
Com alegria e sem zanga

Foi uma infância feliz
A minha neste lugar
Eu não conhecia o mar
Mas tinha meu Tocantins
Que deságua nos Confins
Do meu sonho do presente
No rumo do sol nascente
É um rio frutuoso
Bonito é majestoso
Que traz vida a nossa gente

Nesta cidade importante
Do Bico do Papagaio
Eu tenho feito meu ensaio
Da poesia na terra
Pois meu coração nunca erra
O sentimento que sinto
Tão verdadeiro e distinto
Por este chão é sagrado
Na minha alma está guardado
E jamais será extinto

Nós ainda temos a feira
Temos festa do divino
Igreja tocando sino
O festejo e procissão
Quadrilha de São João
Gente na porta da rua
Fuxicando a luz da lua
Reparando a vida alheia
Igreja com missa cheia
Política e falcatrua

Ainda tem a rezadeira
Levantando arca caída
Tratando gente sofrida
Tirando todo quebranto
Na fé do espírito santo
E rezando o terço inteiro
Dentro de casa ou terreiro
Não morre essa tradição
Da reza, prece e oração
Do devoto verdadeiro

Também tem mulher de branco
Nego d'água e lobisome
Visage que vem e some
Capelobo pelo mato
Tudo isso existe de fato
Tem gente que não acredita
Mas quando vê vulto grita
De medo de assombração
Tem muita lenda no sertão
Falada e também escrita

O Ribeirão Grande ainda
É o refúgio da gente
Alívio pra nossa mente
Um descanso e diversão
Merece preservação
Todo tipo de cuidado
Pra se manter preservado
Para geração futura
Aproveitar a fartura
Deste ribeirão sagrado

Quando é boca da noite
A cidade vai parando
Luz do porte alumiando
Tobasa já apitou
Expediente encerrou
Os piti dogue e espetim
Vende lanche baratim
Tem gente que vai na praça
Para ver se o tempo passa
E o dia chega ao fim

No mês de junho começa
De noite aquela friage
Quando inicia a estiage
A paisage vai mudando
Vento forte assobiando
E muda a vegetação
Tempo do nosso verão
Muito sol, praia e turista
É gente na Boa Vista
Procurando diversão

E nas quadras de esporte
Nos campos de futebol
Na hora de se pôr o sol
O povo se movimenta
Joga, corre, treina e tenta
Viver de forma saudável
Nessa atmosfera agradável
Das praças desta cidade
Todos buscam felicidade
Isto é certo e inegável

Fim de semana tem música
Muito pagode e ousadia
Festa, seresta e alegria
Cantor, voz e violão
Gente indo pro ribeirão
Mergulhar na água fria
Pra renovar a energia
E curtir a natureza
Sossego e toda beleza
Neste chão de poesia

E é só aqui que tem
A rua do pau no mei
Quem um dia aqui já vei
Com certeza visitou
Foto lá até tirou
Abraçado com o pau
Ou apareceu no local
Pra saber se é verdade
Se o pau da localidade
Tá de pé e é real

E o povo no dia a dia
Dá sentido a este lugar
Indo cedo trabalhar
O professor, o ambulante
Vendedor, o comerciante
A doméstica, o barqueiro
O mecânico, o pedreiro
O estudante, o aposentado
Diferente dos apaniguado
Babão de politiqueiro

Terra de muitas aldeias
Da etnia apinajé
Povo que da terra é
O habitante primeiro
Que resiste guerreiro
Apesar do esquecimento
Falta de reconhecimento
Do absurdo preconceito
Luta para ter respeito
Justiça a todo momento

Muitos dizem que aqui
Já teve tudo no passado
O lugar foi apelidado
De cidade do já teve
E quem no passado esteve
Confirma esta sentença
Mas não é como se pensa
Muita coisa ainda tem
Pois tudo vai, depois vem
Para além da nossa crença.

Babaçu ainda nos rodeia
Esta palmeira imponente
Que dá um óleo potente
O azeite mais cheiroso
Pro tempero mais gostoso
Pra fazer o de cumê
É sabor que dá prazê
O Babaçu é cultura
A Quebradeira, bravura
Que nesse chão a gente vê

Esta portanto lhes digo:
É a Boa Vista eterna
Cidade antiga, muderna
Cheia de contradição
Muita história e tradição
Amada por sua gente
Que por ela muito sente
Um carinho verdadeiro
Este lugar por inteiro
Vive em nós eternamente.

Giano Guimarães

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Sebastiana do Seridó: A história de uma guerreira

Autor: Giano Guimarães

Agora eu vou contar
A história de uma guerreira
Que não teme nem o mar
Nem a noite traiçoeira
Tudo é capaz de enfrentar
Nesta vida passageira

Seu nome é sebastiana
Mulher muito companheira
Assim como Leide Diana
Uma rainha verdadeira
Amorosa e soberana
Gentil e hospitaleira

Em Serra Negra do Norte
Deu-se o seu nascimento
lugar de gente de sorte
Que tem pra si um monumento
Uma serra que parece um forte
Um lugar de encantamento

E lá, no sertão do seridó
Desde cedo viu a dificuldade
Viu a seca castigar sem dó
E o povo passar necessidade
Viu açude cheio virar pó
Viu a fome na mocidade

Perdeu a mãe logo cedo
E se viu em grande tristeza
Sentiu a dor e o medo
E também a incerteza
Pois agora tinha partido
A Sua grande fortaleza

Alguns anos mais tarde
Outro ente seu se vai
Agora quem também parte
É Anselmo seu pai
Grande homem e baluarte
Seus seis filhos, guardai

Sebastiana tinha um sonho
Que era as letras aprender
Achava bonito quem lia
Assim também queria ler
Pois a poesia que ouvia
Algum dia iria escrever

Aos nove anos foi para caicó
Começa então sua jornada
Neste mundo agora estava só
E nas mãos não tinha nada
Ainda sofreria como Jó
No decorrer dessa estrada

Com sorte e com alegria
Teve a chance de estudar
com a ajuda de sua madrinha
Começou então a soletrar
Muito feliz ela ria
Pois podia as letras juntar

A galeguinha de Anselmo
Assim a gostavam de chamar
Sebastiana muito bela
Tinha uma beleza sempar
Era uma linda donzela
Era uma flor de juá

Sebastiana foi para o convento
Para ao sacerdócio se dedicar
Percebendo não ter vocação
O convento resolveu deixar
Para mais tarde seguir 
a vocação de ensinar

A vida lhe deu outro rumo
Bem longe dali iria parar
Noutro canto desta terra
Havia de seus pés fincar
muito longe de sua Serra
Nova vida foi buscar

Para chegar ao novo destino
Eram alguns dias de viagem
No caminho viu a força do divino
Na mudança da paisagem
O mato que antes era fino
Virou uma densa folhagem

Então chegou ao maranhão
Com muitos sonhos na bagagem
Muita pureza no coração
Alegria, força e Coragem
vazias estavam suas mãos
mas obstinação era sua mensagem

Na cidade de Imperatriz
Sebastiana começou a estudar
Tinha o sonho de ser médica
para os doentes ajudar
este sonho foi interrompido
quando resolveu se apaixonar

O destino como sempre faz
Colocou em seu caminho
Um jovem e vistoso rapaz
Bom de papo e seu vizinho
Que veio lá do Goiás
todo cheio de carinho

Sebastiana conheceu Duda
E junto com ele a paixão
Resolveram então fugir
De modo que houve confusão
Duda pensou em desistir
E por isso foi para prisão

Depois de esfriar a cabeça
E tomar um banho no rio
Duda recuperou sua certeza
E assumiu o seu desafio
De casar com a bela galega
E viver um tempo sadio

Logo tiveram que ir morar 
Na Boa Vista do Padre João
Sebastiana sem contestar
E pela falta de condição
Na casa do sogro foi pousar
Pois de dureza era a situação

Logo tiveram um menino
O primogênito Adriano
Um ano depois la vem vindo
Outro menino, é Luciano
Sebastiana vivia parindo
Então parou por dois anos

Depois da pausa merecida
Agora pela terceira vez
Sebastiana engravida
Então nasce uma menina
E Fabiana é o nome
Desta linda pequenina

Sebastiana com três filhos
Resolve voltar a estudar
Seu marido constrói uma casa
Para com a família morar
Eles agora vivem melhor
Debaixo de seu próprio lar

Aos poucos a vida sofrida 
Com luta vai se ajeitando
Sebastiana dona de casa
E duda fora trabalhando
\s crianças crescendo
E o tempo assim passando

Eles queriam mais uma filha
Então resolveram tentar
Em 1980 uma nova gravidez
Para a prole se encerrar
Mas só que dessa vez
um menino veio no lugar

Nasceu então o caçula
Este poeta que vos fala
Filho de um nortista
E de uma potiguar arretada
Em seu sangue corre poesia
E no peito uma alegria danada

A vida seguia para Thiana
Com quatro filhos para criar
Ela precisava de grana
Então começou a trabalhar
Começou a dupla jornada
Trabalhando fora e no lar

Sebastiana fez contabilidade
E o magistério começou a frequentar
Pois passou a ter vontade
De aulas então ministrar
Mulher de grande capacidade
Concurso resolver prestar

Em 1986 foi aprovada
Então se tornou professora
Profissão muito honrada
Era como ser uma doutora
Começaria então a nova jornada
Desta grande batalhadora

A partir deste ponto
A história fica mais triste
As lágrimas caem quando conto
O coração quase não resiste
Pois acabo me emocionando
Lembrando como tão cedo partiste

Em 1987 repentinamente
Duda de Sebastiana se vai
Muito jovem e subitamente
Morre aos 33 nosso pai
A vida mudaria radicalmente
Do peito a saudade não sai

Foi embora desta vida
Um bom pai, trabalhador
Que amava sua família
E a ela dava todo valor
A vida então prosseguiria
Sem nosso grande provedor

Sebastiana muito jovem
Da vida recebe um tapa
Perde cedo seu companheiro
Da tristeza ela não escapa
Sua vida mudará por inteiro
Agora começa uma nova etapa 

Sebastiana guarda o luto
Seus filhos não podem esperar
Tudo isso é um susto
Mas a vida deve continuar
Será mais difícil ainda
Dessas crianças cuidar

Duda não deixou posses
Só uma casa para lhes abrigar
E Uma pequena pensão
Para quatro bocas alimentar
Sebastiana ficou sem chão
Pois não sabia se iria aguentar

Sebastiana se apegou a fé
A Jesus cristo e a Jeová
Também a alguns amigos
Para essa barra suportar
Pois agora muita dificuldade
Ela começava a passar

Tudo era pouco e racionado
Roupa, brinquedo e material escolar
O dinheiro era contado
Mas o alimento nunca deixou faltar
Essa guerreira dava um jeito
Para os quatro alimentar

Ajudou em restaurante 
Para um extra receber
Vendia roupa e bijuteria
Até Jogo do bicho foi vender
Assim a peteca não caia
Nem a sua vontade de vencer

Sebastiana fazia o possível
Para as necessidades atender
Dos filhos que outrora
Melhor vida começavam a ter
As vezes até chorava
Mas o choro tinha que esconder

O tempo passava e a vida seguia
Essa jovem mulher precisava viver
Aos poucos deixava o luto
Para a vida aos poucos refazer
A despeito das más línguas
Ser feliz agora era o seu dever

Thiana deixou de ir só a missa
Na seresta resolveu aparecer
Colocou os pés na pista
E dançou até o dia amanhecer
Voltou a se divertir a galega
E feliz resolveu voltar a ser

Seu jardim começa a florescer
Brotando dentro de si alegria
O destino volta a lhe oferecer
A oportunidade que queria
De ser feliz e de novo ter
Um amor que bem lhe traria

E desta vez o destino faria
O inverso do que antes fez
Sebastiana então conheceria
Um Maranhense desta vez
Que arrebataria seu coração
Com uma grande rapidez

Neto era o nome dele
Motorista de profissão
E em sua caçamba amarela
Labutando o ganha pão
Estava sempre de sentinela
Planejando roubar seu coração

Começaram então a namorar
Sentiram que tinham afinidades
Viram então o amor repousar
E a companhia trazer felicidade
Resolveram então se juntar
E começar a vida noutra cidade 

Sebastiana volta para Imperatriz
Algo que talvez não imaginava
Mas o amor foi a força motriz 
Para o destino que a aguardava
Dando nova chance de ser feliz 
A quem talvez não esperava

Ali começou uma nova caminhada
Tinha agora um novo desafio
Pois no Tocantins ela lecionava
Todo os dias atravessando o rio
E depois ao Maranhão voltava
Pois deste lado também trabalhava

Logo depois passou no vestibular
A labuta aumentou no dia a dia
Pois também tinha que estudar
Começa a faculdade de biologia
E não seria fácil conciliar
Como depois logo perceberia

As coisas foram melhorando devagar
E seus filhos se encaminhando
Cada um de um modo particular
Sebastiana ia se orgulhando
Depois de tanta peleja passar
A vida estava lhe recompensando

Em 2002, mais uma vitória
Em ciências biológicas se formou
Não se tornou uma médica
Mas sobre a vida muito estudou
Se sentiu muito realizada
E em sala a muitos ensinou

Cansados da rotina e correria
Depois de 15 anos em imperatriz
E pensando na aposentadoria
A Tocantinópolis decidiram retornar
Com a vida um pouco mais tranquila
Lá, os pés agora iriam plantar

E de volta a cidade dos filhos
Por dois anos muita tranquilidade
Neto já estava aposentado
Thiana esperando completar a idade
E de novo o destino aloprado
Reservaria a dor da fatalidade

Com sua saúde fragilizada
Neto tinha doente o coração 
Sebastiana muito preocupada
Passou por muita aflição
Pois Neto já tinha marcada
Uma delicada operação

Neto não resistiu a cirurgia
Neste momento ficamos sem chão
Ninguém esperava que assim seria
Houve muita tristeza e comoção
Thiana mais uma vez sentiria
O desalento e a dor da solidão

O marido, pai e amigo se foi
Companheiro de vários anos
Muitas lembranças ficaram
E lá se foram muitos planos
Que foram interrompidos
Para dar lugar aos prantos

Thiana lentamente vai tentando
Esta grande perda superar
Recebe a força dos amigos
E também o apoio familiar
Todos ficaram muito sentidos
Com drama da forte potiguar

Um ano mais tarde Bastiana
Conseguiu enfim se aposentar
Depois de 25 anos de sala
Chegou a hora de descansar
Cumpriu seu papel com honra
Dedicação e de modo exemplar

Outras alegrias vieram 
Depois do tempo turbulento
Filhos, seus filhos tiveram
Fazendo dos netos o alento
José, Enzo, Junior e Flor
São seu precioso unguento

Sebastiana resolveu viajar
Lá pra bandas do exterior
Desta vez foi visitar
Seu filho muito batalhador
Nos Estados Unidos foi passear
E esquecer um pouco a dor

Sebastiana descobriu a poesia
E sua capacidade de criar
Se entregou a arte dos versos
Para belos poemas nos dar
Nestes poemas estão imersos
Sentimentos e sua vida neste lugar

Mas o tempo e a distancia
De sua terra e seus entes
Lhe trouxeram muita carência
Saudade e tristeza latentes
Retornar a sua descendência
Era uma vontade insistente

Pois não esqueceu da rapadura
Que adoçou a sua infância
Numa época muito mais dura
Foi sua fonte de sustança
O tempo não levou sua candura
Muito menos sua esperança

Voltou várias vezes à sua terra
Para suas raízes reviver
Ver o xiquexique e o mandacaru
E a caatinga com prazer
Rever sua Serra Negra tão linda
Que com seu peito faz mexer

Essa é a história de Sebastiana
A biografia mais que resumida
Desta mulher de grande fama
Arretada da peste assumida
Que passou por muito drama
Mas no fim venceu na vida

Estas linhas foram poucas
Diante de tudo que podia falar
Bondade, amor e força
Sempre teve muito para doar
Alegria e alto astral
Estão com ela em todo lugar

Pessoa querida e especial
Tão humilde e solidária
Esta é uma pequena homenagem
A essa mulher sexagenária
Que hoje completa seis décadas
Mas que merece ser centenária.

Poemas ao acaso